Wanderclayson é um crente fiel e fervoroso. No último domingo, seu pastor, o Apóstolo Valdivino Celeste, decretou que aquela seria uma semana de vitória para toda a congregação. Que o melhor de Deus seria derramado para aqueles que semearam naquela noite. E o Clayson tomou posse da palavra. Saiu motivado e esperançoso. Ainda ansioso em saber o que Deus estaria preparando para ele, antes de dormir, fez mais uma oração fervorosa para garantir a chegada da bênção.
É segunda de manhã. Wanderclayson acorda suavemente com a musiquinha do caminhão de gás. Quando se dá conta que nunca havia ouvido a música antes, levanta de um supetão e assusta ao ver seu rádio-relógio paraguaio piscando 3:20. "Ô demônio das trevas..." - praguejou - "O cão desligou a energia do bairro de novo - eu sabia que não devia ter faltado ao ato profético de amarrar os demônios desse lugar..." - lamentou enquanto corria pro chuveiro.
Wander agora está em outra corrida. "Maldito capeta... Hoje ele tá que tá!" - vocifera o Clay enquanto vê o 775F-Centro dando adeus. Mas Clayson não desespera. Nesse momento lembra-se da emoção que foi o culto de ontem, e mais uma vez decreta sua vitória naquele dia tão conturbado. Coloca seu MP3 na orelha, onde Laudiane canta: "Não se preocupe, meu irmão, se o mar não se 'abri', você vai de jet-ski! Vai de jet-ski, vai de jet-ski, vai de jet-ski..." - Clayson acompanha a cantora com todo fervor e alegria, mesmo enquanto os incircuncisos no ponto o olham atravessado.
[Já no escritório...]
"Wanderclayson!!!" - grita o chefe do Clay, que o escuta ainda na recepção. Transpirando e ofegante, Clayson entra num tiro. "Onde está o relatório que te pedi na sexta?" - pergunta o Sr. Farah Ó. "Chefe, não consegui terminar porque tive ensaio do coral na sexta, me desculpe!". "Ok, dessa vez passa!", diz o Sr. Ó. Clayson faz uma breve prece agradecendo o livramento e já amarrando os demônios do Seu Ó.
Lá pelas dez, liga Dalilene, a irmã que Clayson aconselhara semana passada a fazer uma campanha em sua casa pelo marido desempregado. "Clay, tô crendo naquela palavra que você me disse que eu sou cabeça e não cauda! Fiz exatamente como você falou. Dei o cheque do seguro-desemprego pro Apóstolo e tô indo toda madrugada orar no monte. Mas é fogo, viu... O diabo se levantou de tal forma que o Zé veio dizer que a gente tá quase passando fome e que eu fico dando dinheiro pra igreja. Tentei convencê-lo a jejuar comigo e sabe o que ele fez?" - "Wan-der-clay-soooooooon!" - Seu Farah interrompe estridentemente o aconselhamento de Clayson. "Só um minutinho..." - respondeu o Clay. "Continua, Dali... o que que esse endemoninhado fez?". "Me arrebentou, Clay! E disse que se eu pegar o cheque de novo, ele vai me bater é com a vassoura!". "Dali, não liga não... isso é levante do...". "Wan-der-clay-sooooooooooooooon" - ecooa a voz do Seu Farah pelo quarteirão. "Dali, depois a gente se fala que o capiroto tá virado no Jiraya hoje!"
Finalzinho de tarde e o Clayson precisa passar a música que vai louvar à noite no Círculo de Oração. Pega seu MP3 e vamô que vâmo, Laudiane! Nesse instante o entrevado do Seu Farah Ó grita novamente pelo Clayson, que embalado pelo forró da Lau, não ouve o chefe chamar. Soltando fogo pelas ventas, Seu Ó vai até a mesa do Wanderclayson e tenta entender que raios o Clayson está fazendo de olhos fechados e cantando: "...vai de jet-ski, vai de jet-ski, vai de jet-ski!". Clayson pede desculpas ao Seu Farah, que o adverte veementemente a se concentrar no trabalho. "Nenhum filho das trevas vai roubar minha bênção" - profetizou baixinho o Clayson enquanto terminava o maldito relatório.
Fim do dia. Clayson sai tão desesperado para não perder o 775F-Bairro que acaba esquecendo de entregar o relatório ao chefe. Já no ônibus, se dá conta do esquecimento: "Ô laço, viu!? Mas Deus tem um propósito nisso, eu sei. Ele escreve certo por linhas tortas."
É terça-feira de manhã. Dessa vez o Clay decidiu colocar o celular pra despertar. Só errou o AM/PM. Como o caminhão do gás não passa de terça, é a vez da mãe do Clay acordá-lo: "WAN-DER-CRAI-SSUUUU!!! Tu perdeste a hora de norro, mininu?" (sic). O culto de segunda havia se estendido um pouco mais, pois o pregador convidado, o irmão coreano Coda Qui Fogo Puro havia vindo do outro lado do oceano para ministrar e as revelações foram muitas. Wanderclayson sai em desespero e bate a perna na quina da cama. "Em tudo dai graças!" - se regozija por sofrer pelo evangelho.
Wanderclayson chega mais uma vez atrasado ao trabalho. Ao sentar-se, encontra sua carta de demissão na mesa. Triste, desiludido com a vida, recolhe suas coisas e volta pra casa. Nada mais faz sentido. Não foi isso que o Apóstolo disse que aconteceria. Sua fé, suas esperanças, seus sonhos... tudo parece escorrer pelas suas mãos como areia. Liga para o Apóstolo, que não pode atendê-lo, pois está na Conferência Profética para Missões Jabou Lani, na África. Foi então, do fundo do poço de sua decepção, que Clay prometeu a si mesmo: "Nunca mais entro numa igreja evangélica!"
É segunda de manhã. Wanderclayson acorda suavemente com a musiquinha do caminhão de gás. Quando se dá conta que nunca havia ouvido a música antes, levanta de um supetão e assusta ao ver seu rádio-relógio paraguaio piscando 3:20. "Ô demônio das trevas..." - praguejou - "O cão desligou a energia do bairro de novo - eu sabia que não devia ter faltado ao ato profético de amarrar os demônios desse lugar..." - lamentou enquanto corria pro chuveiro.
Wander agora está em outra corrida. "Maldito capeta... Hoje ele tá que tá!" - vocifera o Clay enquanto vê o 775F-Centro dando adeus. Mas Clayson não desespera. Nesse momento lembra-se da emoção que foi o culto de ontem, e mais uma vez decreta sua vitória naquele dia tão conturbado. Coloca seu MP3 na orelha, onde Laudiane canta: "Não se preocupe, meu irmão, se o mar não se 'abri', você vai de jet-ski! Vai de jet-ski, vai de jet-ski, vai de jet-ski..." - Clayson acompanha a cantora com todo fervor e alegria, mesmo enquanto os incircuncisos no ponto o olham atravessado.
[Já no escritório...]
"Wanderclayson!!!" - grita o chefe do Clay, que o escuta ainda na recepção. Transpirando e ofegante, Clayson entra num tiro. "Onde está o relatório que te pedi na sexta?" - pergunta o Sr. Farah Ó. "Chefe, não consegui terminar porque tive ensaio do coral na sexta, me desculpe!". "Ok, dessa vez passa!", diz o Sr. Ó. Clayson faz uma breve prece agradecendo o livramento e já amarrando os demônios do Seu Ó.
Lá pelas dez, liga Dalilene, a irmã que Clayson aconselhara semana passada a fazer uma campanha em sua casa pelo marido desempregado. "Clay, tô crendo naquela palavra que você me disse que eu sou cabeça e não cauda! Fiz exatamente como você falou. Dei o cheque do seguro-desemprego pro Apóstolo e tô indo toda madrugada orar no monte. Mas é fogo, viu... O diabo se levantou de tal forma que o Zé veio dizer que a gente tá quase passando fome e que eu fico dando dinheiro pra igreja. Tentei convencê-lo a jejuar comigo e sabe o que ele fez?" - "Wan-der-clay-soooooooon!" - Seu Farah interrompe estridentemente o aconselhamento de Clayson. "Só um minutinho..." - respondeu o Clay. "Continua, Dali... o que que esse endemoninhado fez?". "Me arrebentou, Clay! E disse que se eu pegar o cheque de novo, ele vai me bater é com a vassoura!". "Dali, não liga não... isso é levante do...". "Wan-der-clay-sooooooooooooooon" - ecooa a voz do Seu Farah pelo quarteirão. "Dali, depois a gente se fala que o capiroto tá virado no Jiraya hoje!"
Finalzinho de tarde e o Clayson precisa passar a música que vai louvar à noite no Círculo de Oração. Pega seu MP3 e vamô que vâmo, Laudiane! Nesse instante o entrevado do Seu Farah Ó grita novamente pelo Clayson, que embalado pelo forró da Lau, não ouve o chefe chamar. Soltando fogo pelas ventas, Seu Ó vai até a mesa do Wanderclayson e tenta entender que raios o Clayson está fazendo de olhos fechados e cantando: "...vai de jet-ski, vai de jet-ski, vai de jet-ski!". Clayson pede desculpas ao Seu Farah, que o adverte veementemente a se concentrar no trabalho. "Nenhum filho das trevas vai roubar minha bênção" - profetizou baixinho o Clayson enquanto terminava o maldito relatório.
Fim do dia. Clayson sai tão desesperado para não perder o 775F-Bairro que acaba esquecendo de entregar o relatório ao chefe. Já no ônibus, se dá conta do esquecimento: "Ô laço, viu!? Mas Deus tem um propósito nisso, eu sei. Ele escreve certo por linhas tortas."
É terça-feira de manhã. Dessa vez o Clay decidiu colocar o celular pra despertar. Só errou o AM/PM. Como o caminhão do gás não passa de terça, é a vez da mãe do Clay acordá-lo: "WAN-DER-CRAI-SSUUUU!!! Tu perdeste a hora de norro, mininu?" (sic). O culto de segunda havia se estendido um pouco mais, pois o pregador convidado, o irmão coreano Coda Qui Fogo Puro havia vindo do outro lado do oceano para ministrar e as revelações foram muitas. Wanderclayson sai em desespero e bate a perna na quina da cama. "Em tudo dai graças!" - se regozija por sofrer pelo evangelho.
Wanderclayson chega mais uma vez atrasado ao trabalho. Ao sentar-se, encontra sua carta de demissão na mesa. Triste, desiludido com a vida, recolhe suas coisas e volta pra casa. Nada mais faz sentido. Não foi isso que o Apóstolo disse que aconteceria. Sua fé, suas esperanças, seus sonhos... tudo parece escorrer pelas suas mãos como areia. Liga para o Apóstolo, que não pode atendê-lo, pois está na Conferência Profética para Missões Jabou Lani, na África. Foi então, do fundo do poço de sua decepção, que Clay prometeu a si mesmo: "Nunca mais entro numa igreja evangélica!"

0 comentários:
Postar um comentário